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    July 21

    Dores Internas

    Acordou cedo, como normalmente fazia. Costumava levantar-se junto com o sol, porém dessa vez levantou-se e o sol ainda adormecia. Acordou cedo por causa de uma terrível dor de barriga que o atacara durante a noite. Sua noite foi marcada por pesadelos, um sono turbulento, onde não conseguiu descansar.
    Levantou-se já com as mãos pressionadas contra a barriga e correu para o banheiro. Sentou-se na privada, calças baixas, mas nada aconteceu. A dor parecia ser interna, uma dor forte, aguda, não uma simples dor de barriga. Ajoelhou-se de frente ao vaso e tentou vomitar. Não conseguiu. Enfiou o dedo na garganta, forçando o vômito, e então uma dor aguda tomou conta de seu corpo. Caiu de lado no chão do banheiro, os olhos cheios de lágrimas e um gosto amargo de sangue nos lábios.
    Conseguiu se levantar com dificuldade, escovou os dentes e desistiu da idéia de tentar comer algo antes de ir trabalhar. Seria impossível. Vestiu-se e entrou no carro. Ao sentar no carro a dor aumentou. Sentiu como se houvesse algo dentre de si. Respirou fundo, ligou o carro e partiu.
    A caminho do centro da cidade, onde trabalhava, teve mais um forte ataque de dor. Encostou o carro no acostamento, abriu a porta e vomitou. Seu vômito era composto de sangue e restos de carne. A dor era insuportável, não podia se controlar.
    Sentou-se novamente e deu um forte soco contra o próprio estômago, xingando monstros imaginários. Sentiu então, uma dor insuportável, como se minúsculos dentes se afundassem contra a parede interna de seu estômago. Tossiu pequenas gotas de sangue contra o pára-brisa do carro e caiu de lado, deitado no asfalto, vomitando sangue e pequenos pedaços de seus próprios órgãos internos.
    Sentia como se dentro de si houvesse um pequeno monstro que o devorava centímetro por centímetro, e dava gargalhadas a cada jorro de sangue que saía de sua boca.
    Juntou todas as suas forças para conseguir entrar no carro e partir. Voltou para sua casa, destinado a dar um fim à própria dor.
    Estacionou o carro na garagem que ficava anexo à sua casa e caminhou até um quarto nos fundos, onde mantinha uma espécie de oficina, com ferramentas e todo tipo de equipamento para pequenos consertos em geral.
    Impensadamente apanhou um funil e um pote contendo óleo de motor. Firmou o funil contra a boca e despejou o líquido consistente de encontro à sua garganta. Logo no primeiro gole, engasgou-se e caiu fraco, chorando no chão da oficina.
    Ouvia baixinho um som estranho, que traduziu como a risada sarcástica do pequeno ser que agora adotara seu estômago como lar.
    - Maldito! Vou matá-lo! Você me paga! – gritou insano.
    A dor voltara, ainda com mais força, como que para provar seu poder contra ele. Alucinado pela dor, reuniu suas últimas forças e colocou-se de pé. Cambaleou até a parede forrada com ferramentas e pegou uma pequena foice no formato de gancho. Foi até o afiador elétrico na parede oposta e o ligou. O ruído se misturava com a dor e ele não conseguia mais raciocinar direito. Afiou a foice até que seu fio fosse capaz de cortar a ponta de seu dedo apenas com um toque leve. Perdeu a noção de quanto tempo isso levou. Parava apenas de tempos em tempos para cair de joelhos e vomitar seu próprio sangue, misturado com a carne de seus órgãos, devido à dor insuportável que sentia e que vinha cada vez mais forte.
    Quando o fio ficou pronto, ele esfregou a lâmina contra o próprio dedo, deixando um grosso rastro de sangue para trás. O dor em seu estômago parou brevemente, como que por mágica.
    Ele deu uma risada alta, sonora, que não poderia ser dada por um homem são. Ergueu as duas mãos ao céu, segurando a pequena foice com força. Nesse momento, sentiu uma dor maior do que todas que havia sentido até agora. Era como se um pedaço grande de seu estômago tivesse sido arrancado de uma só vez.
    Abaixou-se e gritou maldições. Reuniu novamente suas forças e levantou-se. Ergueu os braços novamente, e golpeou a foice contra seu próprio abdômen com toda sua força.
    Gritou de dor e sentiu o forte gosto de sangue novamente em sua boca. Mas as dores continuavam, nada havia mudado dentro de si. Puxou a foice pelo corpo, na direção do peito, ainda com a lâmina fria cravada em seu corpo.
    A lâmina chegou até o centro de suas costelas e ele caiu de joelhos. Sua visão embaçada não deixava que enxergasse nada à sua frente. Tentou continuar a cortar-se mas a dor era insuportável. Caiu de lado e sentiu seu estômago ser revirado, como se algo jogasse suas vísceras para fora de seu corpo, abrindo espaço para poder sair.
    Tonto, não pôde identificar o dono do surdo ruído que vinha de seu próprio estômago. Sua cabeça caiu para trás e assim ele morreu, sem ao menos ver o que havia causado a sua morte.

    Concorrente do primeiro concurso de contos do Portal do Elísio.
    Fábio Ricardo 

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